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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

​A Farsa do "Homem de Bem": Quando a Molecagem Encontra o Apadrinhamento do Crime

"Sem postura republicana e fugindo do caso Ana Clara e da farra das armas, Flávio recorre à molecagem para esconder sua cumplicidade com o crime organizado."


Entre ataques desrespeitosos a Lula e fuga de perguntas cruciais, Flávio Bolsonaro escancara a contradição de quem atua para proteger o crime enquanto finge combatê-lo.
O debate exibido pela Band expôs de forma crua o real perfil de Flávio Bolsonaro. Diante de um palco democrático e da oportunidade de debate programático, o candidato do PL optou pela postura que melhor domina: a molecagem, o desrespeito e o desvio deliberado de respostas fundamentais.
Sem compostura para respeitar a trajetória e a idade de seu opositor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio preferiu o deboche truculento às propostas. Pior ainda: acovardou-se. Quando desafiado a abrir e expor publicamente suas contas lado a lado com Lula, o senador simplesmente ignorou o tema, fingindo que o desafio não fora feito. Quem não deve, não teme — mas quem carrega nos ombros o histórico das rachadinhas e movimentações suspeitas sabe exatamente o perigo de expor seus extratos à luz do dia.
A fuga, contudo, não se limitou à pauta financeira. A verdadeira face da hipocrisia bolsonarista emergiu quando o debate tocou na segurança pública.



O peso do caso Ana Clara e a advocacia da impunidade
Durante o confronto, Lula trouxe à tona um fantasma estarrecedor: o caso de Ana Clara Gomes Machado, uma menina de apenas 5 anos covardemente morta a tiro no Rio de Janeiro. Enquanto a sociedade chorava a tragédia de uma criança brutalmente ceifada, Flávio Bolsonaro atuou diretamente na defesa jurídica do policial militar acusado de ser o autor do disparo.  
Assinar recursos para adiar o julgamento e tentar livrar do Tribunal do Júri o acusado de assassinar uma criança indefesa não é mero "exercício formal da advocacia" quando se pretende ocupar a chefia do Executivo: é uma escolha política e moral de qual lado se está. Confrontado sobre esse papel vergonhoso, Flávio se esquivou. Incapaz de encarar a dor da família ou o constrangimento público, evitou responder diretamente à indagação, demonstrando que seu discurso de "defesa das famílias" termina exatamente onde começam seus compromissos com a proteção corporativista.



Balas sem rastro: a senha para milícias e bandidos
Essa atuação não é um ponto fora da curva; é um projeto. Enquanto apregoa o lema de "linha dura" contra o crime, a atuação legislativa do senador caminha na direção oposta, favorecendo diretamente a marginalidade e a milícia.  
A defesa aberta pelo fim da obrigatoriedade do rastreamento de cápsulas e lotes de munição é a maior prova dessa cumplicidade. Quem se beneficia do apagamento de dados rastreáveis de balas? A resposta é óbvia: o bandido, o homicida e o miliciano. Eliminar a rastreabilidade da munição é cegar a perícia policial, inviabilizar a elucidação de execuções e garantir que balística nenhuma consiga ligar a arma do crime ao assassino.
Ao atuar para apagar os rastros das balas e ao advogar para quem puxa o gatilho contra inocentes, Flávio Bolsonaro mostra que sua suposta "pauta de segurança" é uma fraude tragicômica. No palco da Band, viu-se um candidato pequeno, sem postura republicana, que recorre ao desrespeito para esconder a falta de transparência e o compromisso real com a impunidade das armas. O eleitorado não precisa de molecagem no poder; precisa de responsabilidade, respeito e verdade.





sábado, 17 de outubro de 2026

O Casuísmo Constitucional e a Sombra da Impunidade Nilo Geronimo Borgna

A intenção de alterar a Carta Cidadã por quem acumula investigações no Ministério Público revela um projeto de blindagem, não de país.




​A história constitucional do Brasil ensina uma lição fundamental: Constituições escritas sob a urgência de projetos autoritários ou para blindar elites políticas duram pouco e custam caro à sociedade. A Carta de 1988 — a nossa Carta Cidadã — não nasceu do capricho de um grupo, mas da superação de um longo período de exceção. Foi um pacto coletivo em defesa dos direitos fundamentais, do fortalecimento das instituições e da limitação do poder estatal.



​É sob esse prisma que se deve encarar com máxima gravidade a mais recente movimentação política do deputado Eduardo Bolsonaro. Confiante no desenho de uma maioria conservadora no Congresso Nacional, o parlamentar sinaliza o desejo de promover alterações profundas — ou até mesmo a refundação — do texto constitucional. Sob a retórica gasta de “defesa da família e dos costumes”, esconde-se uma agenda perigosa e declaradamente patrimonialista.




​A pergunta que o debate público precisa fazer é direta: a serviço de quem estaria uma nova Constituição desenhada sob essa hegemonia?
​Para responder, basta olhar para o histórico dos formuladores dessa proposta. Eduardo Bolsonaro e seu clã político não chegam a esse debate com credenciais de estadistas, mas com uma extensa bagagem de investigações conduzidas pelo Ministério Público. Falamos de atores diretamente vinculados ao escândalo das "rachadinhas" — o esquema sistemático de apropriação do salário de assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro — e a manobras atípicas de lavagem de dinheiro, cujo exemplo mais notório é a negociação envolvendo a franquia de uma loja de chocolates Kopenhagen.




​Quem usou as brechas do sistema para transformar gabinetes públicos em negócios de família dificilmente proporá um texto constitucional voltado ao interesse coletivo. O risco real não é apenas a aprovação de uma pauta moralista e excludente; é a reescrita das leis fundamentais para institucionalizar a impunidade, enfraquecer os órgãos de fiscalização e controle — como o próprio MP e o Judiciário — e criar escudos protetores para aliados e parentes.
​Substituir os pilares garantistas da Constituição de 1988 por um projeto desenhado para blindar investigados é um retrocesso civilizatório. Significa desmantelar as conquistas sociais, ambientais e trabalhistas edificadas ao longo de quase quatro décadas para erguer, em seu lugar, uma "Carta de Proteção à Casa Grande".
​O Brasil não precisa de uma Constituição feita para proteger o patrimônio e a liberdade de um clã. A Constituição Cidadã pertence à sociedade brasileira e às suas futuras gerações — e defendê-la contra o casuísmo e a conveniência dos investigados é o primeiro dever de qualquer compromisso verdadeiramente democrático.

​"À exceção da Carta Cidadã de 1988 — nascida do consenso de uma Assembleia Constituinte plural —, a história constitucional brasileira esteve quase sempre marcada pelo casuísmo. De 1824 a 1967, o país assistiu a governantes reescreverem a Lei Maior para acomodar seus próprios projetos de poder e blindar seus privilégios. A tentativa de alterar a Constituição de 1988 sob a batuta de investigados é a tentativa de ressuscitar esse passado casuísta."



​A Farsa do "Homem de Bem": Quando a Molecagem Encontra o Apadrinhamento do Crime

"Sem postura republicana e fugindo do caso Ana Clara e da farra das armas, Flávio recorre à molecagem para esconder sua cumplicidade co...